40 anos, 40 artistas | Miguel d’Alte e as Bienais Internacionais de Arte de Cerveira

Miguel Ângelo d’Alte Rodrigues nasceu em Braga a 2 de fevereiro de 1954 e faleceu, trágica e precocemente, a 24 de dezembro de 2007, colhido por um comboio em Vila Nova de Gaia. As suas cinzas repousam no rio Minho, tal qual era sua vontade, em jeito de requiem pela intensa relação afetiva que desenvolveu com Vila Nova de Cerveira (e com a sua Bienal Internacional de Arte), que foi a sua casa nos seus últimos 5 anos de vida e produção artística. Moçambique, Porto e Lisboa são outros territórios de forte presença na sua biografia.

A primeira participação de Miguel d’Alte nas BIAC dá-se em 1980, portanto, na segunda edição do evento e a primeira em que decorre o concurso internacional. A par da relação que o pintor acabará por estabelecer com esta vila do Alto Minho, é importante reforçar que terá sido também aqui que terá contactado, pela primeira vez, com homens como Jaime Isidoro (1924-2009), José Rodrigues (1936-2016) e Henrique Silva (n.1933), peças fundamentais no desenvolvimento da sua carreira, tendo sido, inclusive, Henrique Silva, quem em janeiro de 2008, o intitulou de “Pintor Maldito”.

É no contexto da sua participação na II BIAC que Miguel d’Alte conhece Jaime Isidoro, com quem colaborará diretamente por vários anos, realizando em 1984, inclusive, na Galeria Alvarez, a sua segunda exposição individual. Várias fontes contam, inclusive, a história de que terá sido Jaime Isidoro a aconselhá-lo a utilizar o nome Miguel d’Alte e não “Miguel Ângelo Rodrigues” ou “d’Alte Rodrigues”. Contudo, será no âmbito da participação de Miguel d’Alte da III Bienal de Cerveira que se afirmará a sua irreverência: Miguel d’Alte faz uma intervenção num aglomerado granítico, no Monte da Encarnação, a caminho do Convento San Payo, incentivado tanto por Jaime Isidoro como por José Rodrigues. A utilização de recursos endógenos na criação artística contemporânea é, aliás, uma tendência e sinónimo de vanguarda. Em Portugal vemos, por exemplo, a obra “Mulher- Terra-Vida” que Clara Menéres apresenta na Alternativa Zero, em 1977. Ou, então, o “Canavial” de Alberto Carneiro que marcam uma importante aproximação da arte portuguesa às vanguardas internacionais.

Remetendo-nos ao contexto de conflito permanente com a população que caracterizava estas primeiras edições da Bienal de Cerveira e à localização do aglomerado granítico no Monte da Encarnação, com intenso significado religioso, imediatamente percebemos o motivo da “polémica”. Ao tornar-se pública a intervenção do pintor, a população local imediatamente se revoltou e tinha como intenção punir, severamente, o autor do ultraje. José Rodrigues, artista que merecia, já à data, respeito por parte dos cerveirenses, foi então chamado a intervir e a assumir o papel de juiz numa espécie de “tribunal popular” em que a Vila se opunha a Miguel d’Alte. O pintor acaba por ser considerado inocente e o arrojo, mas também a qualidade da obra que vinha desenvolvendo nos ateliers da III Bienal de Cerveira, merecem-lhe, por parte da organização, a atribuição de uma Medalha da Câmara Municipal de Vila Nova de Cerveira, a Miguel Ângelo D´Alte Rodrigues pela sua “Intervenção Pictórica na Natureza” (Pintura de rochas no monte da Nª Senhora da Encarnação), conforme se descreve no Relatório de Atividades da III Bienal de Cerveira[1].

Fundamental para a implementação das Bienais de Cerveira foi sempre a ação da Câmara Municipal de Cerveira e dos seus líderes. É João Lemos Costa (1974-1982), o primeiro presidente eleito democraticamente em 1976, quem desafia Jaime Isidoro a alargar a ideia dos Encontros Internacionais de Arte para o que se configuraria numa Bienal Internacional de Arte. Germano Lopes Cantinho (1982-1989) é quem lhe sucede e é durante os seus mandatos que é atribuída uma bolsa a Miguel d’Alte, que contemplava uma quantia em dinheiro, em troca de obras para o espólio do (na altura) futuro Museu da BIAC. Com a chegada ao poder, em 1989, de José Manuel Carpinteira (1989-2013), o executivo opta pela suspensão desta bolsa. Na IV Bienal de Cerveira, em 1984, o catálogo volta a fazer referência à participação de Miguel d’Alte e em 1986, também, com uma referência em catálogo de duas obras a concurso. A obra em destaque esta semana, de 1984, integrou o concurso de 1986 e trata-se de um óleo sobre tela de 150 x 200 cm, coincidente com uma fase mais figurativa e surrealizante da trajetória do “Pintor Maldito”.

As participações de Miguel d’Alte manter-se-ão em várias edições da BIAC, sendo a de 2007, a XIV, a última em que a sua pintura se construiu nos ateliers livres. Henrique Silva descreve Miguel d’Alte como “muito ativo, sempre presente, de bom trato com o público e os outros artistas, educado, dedicado à pintura. Notava-se que se sentia bem nos ateliers, que aquela forma de trabalhar, em coletivo e na informalidade, tinham a ver com ele.”[2] A passagem de Miguel d’Alte pela BIAC é de uma enorme relevância e atravessa as várias fases da vida e obra do artista. Permite-nos compreender as suas fases e influências. A coleção da Fundação Bienal de Arte de Cerveira integra um número alargado de peças deste artista cujo exemplo de Liberdade continua a merecer referência no seio da comunidade artística.

[1] Consultado a 25 de setembro de 2014 no arquivo da Fundação Bienal de Cerveira.

[2] Excerto de entrevista concedida a Helena Mendes Pereira em agosto de 2013.

 

Texto de Helena Mendes Pereira

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