Ainda a Coleção e os seus artistas | Ode em bronze por Artur Moreira

Artur Moreira “Sem título” Escultura 80×1120 cm Coleção da Fundação Bienal de Arte de Cerveira

 

Talvez nos lembremos de Artur Moreira pois, juntamente com o pintor António Modesto, criou a mascote da Expo’98, selecionada entre 309 propostas e batizada de Gil, em homenagem ao navegador português Gil Eanes que navegou, em 1434, para além do Bojador. Contudo, a sua obra ocupa outros espaços públicos e, ainda que conheça no bronze a excelência, é multifacetada na escolha dos materiais, mantendo-se fiel a uma certa figuração, por vezes de inspiração surrealista e com ecos na Arte africana.

Artur Moreira (n.1946) é natural de Espinho e formou-se em Escultura pela Escola Superior de Belas Artes do Porto (atual FBAUP) onde, inclusivamente, foi professor. Atualmente, mantém a acumulação da atividade docente na A.R.C.A.-E.U.A.C. (Escola Universitária das Artes de Coimbra) com a de artista plástico. O seu trabalho no campo da escultura intensifica-se num quadro de aproximações ao real, transmutados em composições que nos indagam a perceção e que estão carregadas de um códice vinculado à natureza e à relação do homem com a mesma. Artista amplamente representado em coleções públicas e privadas e com dezenas de exposições, coletivas e individuais, realizadas desde 1965, Artur Moreira foi alvo também de vários prémios e menções. As suas paisagens, plenas de emaranhados de arvoredos, apresentam-se, muitas vezes, em dípticos escultóricos, como é exemplo “Paisagem I” (41×55,5×21 cm), obra apresentada na XII Bienal Internacional de Arte de Cerveira, realizada entre 16 de agosto e 21 de setembro de 2003 e que integra a coleção da Fundação Bienal de Arte de Cerveira. Contudo, além das recorrentes participações em edições da bienal mais antiga da Península Ibérica, o espaço público da Vila das Artes inclui, no seu museu a céu aberto, uma intervenção escultórica de Artur Moreira, situada nas proximidades do Aquamuseu do Rio Minho. Numa variação entre o texturado encarnado e a sugestão da forma clássica que surge nos elementos quase brancos, Artur Moreira cria uma espécie de mensagem escrita, plena de cheios e vazios que dialogam com a parede que os acolhe e abrem espaço para que aquela área se revista de significados.

Herdeiro, ainda, da tradição clássica da Academia, Artur Moreira procura, contudo, dentro do virtuosismo que o caracteriza, adensar com camadas as suas criações, aproximando-se dos conceptualismos dos nossos dias com um equilíbrio entre a urgente evidência de um “saber fazer”, a vanguarda e o domínio da ideia. As suas obras, de escala manipulada, aparecem-nos como pequenos ecrãs tridimensionais, janelas para o mundo em rutura e em ebulição.

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