Ainda a Coleção e os seus artistas | REPOUSAR com Pedro Figueiredo

 

Em 2003, no âmbito da XII Bienal Internacional de Arte de Cerveira, realizada entre 16 de agosto e 21 de setembro, Pedro Figueiredo (n.1974) venceu com Repouso (180×220 cm) o Prémio Revelação do evento, integrando, a partir daí, várias edições da bienal mais antiga da Península Ibérica e passando a fazer parte do leque de artistas da coleção da Fundação Bienal de Arte de Cerveira.

Pedro Figueiredo é por estes dias um dos autores mais unânimes da sua geração, com vasta obra em espaço público e representada em importantes coleções públicas e privadas. É escultor. E a escultura é sempre mais do que a matéria, é o cheio e o vazio, o espaço ocupado e o seu entorno, é o conceito assumido e a adjacência tentacular das leituras que permite. Em Pedro Figueiredo também é sonho e é sempre o desenvolvimento de um código semiótico de interpelação do real a partir do subconsciente que a técnica consegue traduzir.

As esculturas de Pedro Figueiredo são parábolas, são metáforas, aliterações e pleonasmos vocabulares. São fábulas, pequenas narrativas da imaginação. Alimentam os nossos desenhos no ar que desafiam o nosso entendimento. Têm marcas, sobretudo as de resina de poliéster no cinza luminoso da matéria que adensa a estória no elemento colorido que lhe é somado: uma bola, um coração, uma lâmpada, uma joaninha, uma peça de xadrez, uma tesoura, um parafuso ou uma ausência. Composições simples em associações formais complexas. Um exagero das extremidades, um esticar dos corpos que nos sugerem sempre a geometria das coisas e uma manipulação das escalas e da relação entre os elementos. O real é referência mas é do surreal que vem a plasticidade, numa associação livre de formas e numa singular meta-leitura do que nos rodeia. Nada é o que parece ou tudo é o que nos apetece. O bem e o mal, dicotomia dos sentidos. A Arte como poética e a poesia como vício, confusão da transparência  pois, segundo Nietzsche, tudo o que é profundo ama a máscara, o segredo, o ardil e o jogo[1]. As suas esculturas, como Repouso, são máscaras, consternações interiores do poeta e do escultor. São mulheres, são Medeias, são projetos surreais, são horizontes e devaneios de infância, são alucinações freudianas, são estórias, sempre as estórias dos outros que desaguam em nós, recordando Gaston Bachelard (1884-1962):

A história – sempre a história dos outros! -, aplicada aos limbos do psiquismo, obscurece todas as potências da metamnésia pessoal. Entretanto, psicologicamente falando, os limbos não são mitos. São realidades psíquicas inapagáveis. Para ajudar-nos a penetrar nesses limbos da antecedência de ser, os raros poetas vão trazer-nos suas luzes. Luzes! Luz sem limite![2]

Pedro Figueiredo não persegue fórmulas. Está, antes, interessado em desafios que vão para além dos matéricos. Puros desenhos no espaço, as obras deste escultor, natural da Guarda mas residente em Coimbra (cidade onde, aliás, completou a sua formação académica), revelam-nos uma techne rigorosa, um saber fazer que se acompanha do saber pensar. Classicismo de execução, portanto, que soma a crueza do conceptualismo contemporâneo: são mulheres mitológicas, por um lado, e minimalismos existenciais sem género, por outro. As suas obras são relatos de uma ontologia das imagens e de uma fenomenologia da imaginação[3]. Ultrapassam a escala dos comuns e dialogam com o espaço de exposição confundindo-se com os públicos: aquelas também são as nossas interseções de pensamento, aqueles também são os nossos jogos de tabuleiro, as nossas ideias, as nossas referências e as nossas superstições.

Pedro Figueiredo é escultor. As suas esculturas são atos comunicantes. Arte que, não sendo vida, vem da vida, respira os seus pérfidos e sedutores detalhes. Eterna dicotomia do bem e do mal, da felicidade e da hegemonia da solidão ou, terminando com Bachelard:

Que seria dos grandes sonhos da noite se não fossem sustentados, nutridos, poetizados pelos lindos devaneios dos dias felizes?[4]

[1]     Citado em HAN, Byung-Chul – A Sociedade da Transparência. Lisboa: Relógio D’Água, 2014. Página 33.

[2]     BACHELARD, Gaston – A Poética do Devaneio. São Paulo: Martins Fontes, 2009. Página 103.

[3]     BACHELARD, Gaston – A Poética do Devaneio. São Paulo: Martins Fontes, 2009. Página 202.

[4]     BACHELARD, Gaston – A Poética do Devaneio. São Paulo: Martins Fontes, 2009. Página 202.

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