Projeto “40 anos, 40 artistas” | Nos “Encontros” com Henrique Silva

1978. Ano em que ocorreram, simultaneamente, em Vila Nova de Cerveira, os V Encontros Internacionais de Arte (5 a 12 de agosto) e a I Bienal (5 a 31 de agosto), ambos organizados pelo Grupo Alvarez. Henrique Silva (n.1933) já fazia parte do núcleo de artistas que intervinha nos ditos “Encontros” e, em 1978, refere que nos anteriores tinha havido pouca preocupação de diálogo com as populações, tendo sido mais virados para a possibilidade de os artistas plásticos “se libertarem dos seus próprios fantasmas. Assim, são estes mais positivos, mais “Encontros”, talvez”. A fonte do relato é o Cerveira Nova, no encarte publicado no último trimestre de 1978 e reeditado em 1995 pela organização da VIII Bienal Internacional de Arte de Cerveira. Em 1978, o discurso de Henrique Silva sobre a necessidade de aproximar os públicos dos artistas e, consequentemente, da produção artística contemporânea era já coincidente com aquela que viria a ser, sempre, a sua postura. De resto, o seu domínio de investigação é marcado por esta discussão em torno das artes plásticas tradicionais VS artes digitais, investigação teórica que se reflete em exercício prático e numa produção inquieta e regular que é plural e diversificada nos meios e nos suportes, que vão da pintura às artes digitais. É por isso que, 40 anos depois de ter descoberto Vila Nova de Cerveira e de por ela se ter enamorado, escolhendo-a como casa até ao fim dos seus dias, a sua obra continua a ser o exemplo perfeito da problemática que, 40 anos depois, colocamos como cerne da XX Bienal Internacional de Arte de Cerveira, que se inaugura a 10 de agosto de 2018.
Todavia, na obra de Henrique Silva, o registo é sempre intimista e os motivos que preenchem a composição são o nu feminino e o ambiente doméstico, onde se inclui o “atelier e as suas alfaias”, nas palavras de Manuela Bronze. Outro dos encantos da obra de Henrique Silva é a sua paleta de cores com pouca luz, misteriosas e secas que refletem a extrema importância da convivência com Arpad Szenes (1897-1985) com quem trabalhou nos tempos de Paris. Mas a pintura de Henrique Silva tem um tom de vanguarda bem diferente do de Arpad, que nos reporta para o universo cinematográfico de Jean-Luc Godard (n.1930) e que reflete o ambiente político e cultural que viveu em Paris na década de 1960 e parte da de 1970. Em todos os trabalhos dominados pelo nu feminino, sempre singelo, Henrique Silva elogia o belo, a mulher, numa forma de pintar que o define e identifica. O óleo sobre tela de 100x81cm, que esta semana se destaca no âmbito do projeto “40 anos, 40 artistas”, persegue estes pressupostos e é, no contexto da coleção da Fundação Bienal de Arte de Cerveira, marca daquele primeiro Verão em que os artistas ousaram desafiar o rio, a montanha e as suas gentes, por via da arte, da intervenção cultural e artística e, sobretudo, da presença e saudável convivência até aos nossos dias. É belo em forma de história que se pode e quer contar.
A experimentação faz parte da sua natureza e, curiosamente, na exposição “Arte, Resistência e Cidadania”, patente na Assembleia da República, o público poderá descobrir um dos seus objetos interativos, datado de 1977, com a mesma marca temática e compositiva, em pintura sobre madeira, mas desafiando ao estabelecimento de uma relação com a peça, podendo, cada um de nós, construir uma estória a partir das múltiplas possibilidades do objeto. Em 1977 uma obra de arte com este tipo de ambição, constitui-se como um ato revolucionário e como um passo claro da ideia dita ao Cerveira Nova: é preciso aproximar a arte e os artistas das pessoas.
Henrique Silva é um dos sócios-fundadores da Fundação Bienal de Arte de Cerveira e dirigiu diversas BIAC. Com ele, a bienal conheceu um período de organização interna e de estabilização do seu formato. Contudo, a BIAC não é o único projeto a que Henrique Silva se associou e emprestou o seu espírito dinâmico, empreendedor e a sua enorme inteligência, acumulando funções diretivas e pedagógicas: Grupo Vídeo do Porto, Cooperativa Árvore, Pedra a Pedra – Centro de Estudos e Trabalho da Pedra, Associação Projecto – Núcleo de Desenvolvimento Cultural, Escola Profissional de Economia Social, Escola Superior Gallaecia, são apenas alguns projetos que contam com a sua passagem ou têm a sua marca efetiva. É Presidente Interino do Conselho de Fundadores da Fundação Bienal de Arte de Cerveira. A sua extensa atividade como dinamizador cultural “enfatiza a sua capacidade, ímpar, de consigo reunir grupos de artistas proporcionando- lhes as mais variadas oficinas (resinas, gravura, vídeo, processos digitais, cerâmica, desenho, pintura e outras) a fim de que, perante novos ou velhos materiais e técnicas, se abordem outras linguagens a par do debate sobre as problemáticas pessoais da esfera artística ou criativa de cada participante”, recorrendo novamente a Manuela Bronze. É por isso que é sempre tratado por “professor” pois essa é uma das dimensões que unanimemente lhe reconhecemos.
Recuando, interessa referir que, desde os primeiros passos que o seu percurso académico também se afirmou como brilhante. A Paris chega como bolseiro da Fundação Gulbenkian em Paris (1961-1963), acabando por se licenciar pela Université de Paris em Artes Plásticas para o Ensino (1977). É doutorado pela Universidade Aberta e Universidade do Algarve (2016). Realizou mais de 50 exposições individuais em França, Espanha, Bélgica, Suíça, Brasil e Portugal e participou em mais de 200 exposições coletivas entre a Europa, América e Japão. A sua extensa obra merece ser amplamente estudada e discutida, pela pluralidade de propostas que, apesar dos métodos ou suportes, nunca perdem o rumo e a delicadeza deste singelo óleo, marca do ano bonito de 1978.

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