Projeto “40 anos, 40 artistas” | Um atlas do corpo por João Antero

João Antero 1996 HOMENAGEM ORGÂNICA Escultura em Granito 2,80 x 2,00 x 1,50 m

Em o Atlas do Corpo e da Imaginação, Gonçalo M. Tavares traça-nos, em escala de amplitude filosófica e poética, uma narrativa histórica e literária sobre o lugar do corpo nas artes, no pensamento e na semiótica do quotidiano. Labirinto de paisagens escritas, a dada altura o livro fala-nos da não-liberdade em relação ao nosso próprio corpo: não controlamos que muda e envelhece.

Digamos que há um progresso – no sentido de movimento – biológico e individual, ao qual o indivíduo nunca poderá escapar. Este progresso celular, íntimo, absolutamente privado: progresso pessoal não controlado por qualquer mecanismo humano, e que exigirá, porventura, movimentos universais mais significativos. O corpo tem um progresso privado, celular, a que jamais pode escapar. E as sociedades humanas só progridem porque o indivíduo envelhece.[1]

A obra plástica de João Antero (n.1949) é, por assim dizer, o elogio da forma humana, do corpo e, fundamentadamente, da fêmea que dilacera à voracidade do tempo, transformando a idade em matéria escultórica que se extrai da natureza. Em 1996 o escultor, assíduo das Bienais Internacionais de Arte de Cerveira, participou no Simpósio de Escultura em Granito, uma iniciativa da Associação Projeto – Núcleo de Desenvolvimento Cultural e que legou, ao espaço público da Vila das Artes um conjunto de obras que fazem hoje parte da marca da paisagem. A obra, situada no Largo do Terreiro em frente a atual Caixa Geral de Depósitos, denomina-se Homenagem Orgânica (280x200x150 cm), e sugere-nos a impressão em pedra do corpo de uma mulher, tateado pelas imprecisões da matéria que sugere a ligação entre os dois elementos que constituem a peça. É como de o corpo humano se extraísse diretamente do bloco, ou seja, da natureza, a ela voltando no final do normal processo de envelhecimento. Na leitura e na interpretação, ficamos no limbo entre a forma mulher e a de uma qualquer espécie de flora, ainda que seca de folhas e de frutos na sua composição atual, como uma Medeia envolta no desejo de vingança. João Antero é um mestre no que ao trabalho em pedra diz respeito, apresentando também grande virtuosismo, ainda que maior concetualismo, no trabalho sobre madeira, por exemplo. A série de trabalhos em que reflete sobre o orgânico acompanhou-o por um longo período de produção e a coleção da Fundação Bienal de Arte de Cerveira integra também, de 2003, um grafite sobre papel (70×100 cm) intitulado Consciência Orgânica e apresentado no âmbito da XII Bienal Internacional de Arte de Cerveira, realizada de 16 de agosto a 21 de setembro. O desenho remete-nos para o contexto da peça em espaço público, repetindo-lhe o conteúdo formal, ao qual soma as potencialidades do desenho e do enquadramento paisagístico das formas e subtrai a magia da pedra e o campo de sugestão texturada desta. Mulheres ou árvores parecem emergir do solo, como outrora se expandiram do bloco de pedra.

Natural de Ovar, é licenciado em Escultura pela Faculdade de Belas-Artes do Porto, tendo concluído a sua formação académica em 1980. Entre 1983/85 foi bolseiro de pós-graduação da Fundação Calouste Gulbenkian em Investigação da Escultura em Madeira e Metais, tendo obtido equiparação a bolseiro do Ministério da Educação por igual período de tempo. Foi Professor do 2º ciclo em São João da Madeira e entre 1989/92 é destacado através de contrato pelo GETAP para o Centro de Estudos da Pedra do Porto. De 1992 a 2000 foi professor em regime de requisição da Escola Superior de Arte e Design das Caldas da Rainha. É professor de escultura no Centro de Arte de São João da Madeira. Expõe individual e coletivamente desde 1981, tem vários prémios nacionais e internacionais e está representado em coleções de museus e instituições cultural em Portugal e no estrangeiro, tendo a sua obra igualmente presença em diversos espaços públicos nacionais.

João Antero propõe-nos uma cartografia do corpo, valorizando-o no respeito pelas suas formas e consequente. O seu trabalho é íntimo e privado, ainda que público e aceção fácil, através do belo que consubstancia, por quem se detém a olhá-lo.

[1]     TAVARES, Gonçalo M. – Atlas do Corpo e da Imaginação. Alfragide: Editorial Caminho, 2013. Páginas 117 e 118.

 

« Texto de Helena Mendes Pereira

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